
Que as séries de TV estão cada vez mais ousadas e corajosas, ninguém mais tem dúvida. É só olhar para os grandes sucessos que têm ganhado multidões de fãs worldwide: A começar por Glee – uma dramédia pontuada por números musicais -, exemplificando com True Blood – onde vampiros ganham dimensões muito acima dos glamurosos e pueris romances de Crepúsculo -, e só pra citar mais um, o gangsteriano Boardwalk Empire. São poucos, no entando, aqueles que conseguem conciliar a difícil conquista da originalidade com a reposta positiva do público.
The Walking Dead que o diga. Baseado na graphic-novel homônima, chegou nas telinhas com alvoroço: no que incluía desde campanhas no twitter e no facebook até caminhadas de zumbis em várias cidades do mundo, como ocorreu em São Paulo, Sydney, Londres e San Diego, tudo pra promover o progama. Mas, repetindo o péssimo hábito do cinema de hollywood de sempre fazer muito barulho por nada, a série em nenhum momento faz jus ao marketing que recebeu. O Que se viu, ao contrário, foi um espetáculo de situações que, quando não risíveis, beiravam ao amadorismo da pior espécie.
Por que se você já viu dezenas de filmes sobre zumbis, perpassando o terror, a comédia, o trash ou o cult, ainda não foi suficiente. Lá vem um ramo enorme de produtores transformar uma banal história de mortos-vivos em algo dramático e – pasmem - verossímil.
É possível perceber isso já nas primeiras cenas do primeiro capítulo: Quase um clássico das narrações de zumbis, uma cena onde uma dócil e inofensiva criança (de preferência com um vestido rosa e um ursinho de pelúcia na mão, sempre funciona), se transforma subitamente em um perigoso monstro comedor de carne que precisa ser aniquilado imediatamente com um tiro no meio dos olhos. Mais clichê… É possível sim. Pelo menos é o que nos mostra o produtor Frank Darabont (já conhecido de hollywood pelos ótimos Um Sonho de Liberdade e O Nevoeiro), em uma cena aonde o policial Rick Grimes (o britânico Andrew Lincoln) acorda de um coma em um hospital deserto, situado no que parece ser o mundo que conhecia antes, só que agora tomado por zumbis e completamente caótico. Não dá pra contar nos dedos as vezes em que já se viu um personagem qualquer envolvido em um manto clínico vagando pelas ruas desertas de uma grande cidade.
Um dia após ser acolhido na casa de uma família de sobreviventes, lá vai o herói vestir a farda de policial para cumprir o dever de proteger e guardar a sociedade dos montrengos, como se já vivesse na zumbilândia a mais tempo que qualquer um.

Pra coroar as coisas da melhor forma, não podia faltar um triângulo amoroso aqui, misturado com um ou outro conflito psicológico de quinta categoria. É assim que, se alimentando dos cadáveres dos piores roteiros sobre zumbis já feitos, The Walking Dead se arrasta por insuportáveis seis episódios, que bateram record de audiência na TV fechada americana: o último capítulo registrou o lendário dado de 6 milhões de espectadores, meta nunca antes atingida por qualquer progama de TV por assinatura.
Fato que nos leva a perceber que, na guerra pela audiência, vale tudo. E que esse vale-tudo, às vezes, pode render sucessos estrondosos. No entanto, apertando os olhos pra conferir os detalhes, também é possível notar que um vale-tudo onde zumbis mais parecem pacientes de um sanatório (ou onde toda vez que é preciso matar um morto-vivo tenha que se cair no choro), não só não dá pra digerir, como também pode ser tóxico, se tentar demais.